"Todas as virtudes e defeitos me personalizam"





















“Você entra naquela rotina, a faculdade e o trabalho te absorvem tanto, que a semana passa praticamente no piloto automático, sem questionamentos abrangentes. Você se enquadra no ritmo diário e até o prazer do cinema ou passar pela galeria do rock, sentam naquele grande e espaçoso sofá da rotina. Eu, apesar de não gostar da repetição, confesso que ouço Mutantes quase todos os dias e sou uma viciada inveterada em flores, filmes clássicos, policiais e, é claro, na internet. Encarando a rotina de uma forma paradoxal, levando em conta que “fugir da rotina” se tornou uma forma de ir ao encontro da felicidade, acredito que estar bem adaptado à ela é, por outro lado, uma questão de sobrevivência. Eu me arriscaria até a dizer que a rotina pode ser o caminho mais sereno e eficaz para atingirmos metas e objetivos de vida. Mas é ai que o ato de escrever torna-se surpreendente. Eu me observo muito e passei a notar que quando algo me vem à mente, e tenho aquele ímpeto para escrever, tudo isso vira pó. Assim como um pai de santo incorpora uma entidade nos terreiros da nossa linda Bahia, eu desencorporo a rotina e mergulho em um estado meta-físico completamente incomparável à qualquer outro que permeie o meu dia-a-dia. Nenhuma experiência se iguala à flutuação e plenitude mental que sinto ao rascunhar uma ideia ou propósito. Escrever é uma quebra colossal da rotina. Por dentro, o corpo se amplia ao se encher de ar na tentativa de catar todos os detalhes para uma construção perfeita da frase. Por fora, tudo se apaga, a platéia se cala e me aguarda. E naquele momento sou livre para ser tudo, um pássaro, um peixe ou um gato, um artista, um andarilho ou quem sabe, um perverso matador. Vou onde quiser, faço o que me der na teia, tenho todos os sentimentos do mundo, todas as máscaras me cabem, todas as virtudes e defeitos me personalizam. Meu interior é uma planície iluminada com pessoas, coisas e cores jamais flagradas em um dia comum. Ao terminar o texto, o resultado, é verdade, nem sempre me agrada tanto e raramente está à altura da minha imaginação. Na maioria das vezes é massacrado por meu auspicioso e execrável senso crítico, muito digno, por sinal. Depois de tudo, só me resta voltar à ela, a adorável e incontestável rotina, ser eu mesma em busca de um lugar ao sol, um pouco de paz e serenidade nesse mundo pauleira. Recolho meus apetrechos, dou uma vasculhada ao meu redor, vou até a sala e me recosto no sofá. (só faltou ouvir a voz do Bonner, Boa noite e a musiquinha do jornal nacional).”



Elisa Bartlett, em “Extra-ordinário”. 

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